Oito anos depois, outro 5 a 4 memorável; é possível sonhar?

pedro fluminense

O roteiro entre o jogo deste domingo e o épico duelo entre Santos e Flamengo em 2011 é muito similar. Começo de Brasileirão, time carioca fica com um 3 a 0 contra bem rápido fora de casa, faz um gol e começa uma reação que termina com uma vitória incrível em jogo de nove gols.

Tem algumas diferenças. Mas fica um alento: o futebol brasileiro começa a timidamente olhar para o futuro. Aliás nem tanto para o futuro, mas para o espaço que perdemos nos últimos anos.

Sem tanto brilho, mas com ideias

Aquele jogo do Santos contra o Flamengo tinha Neymar de um lado e Ronaldinho Gaúcho do outro. No Grêmio x Fluminense, não era o caso, apesar de Pedro e Everton terem o potencial de fazer uma carreira boa na Europa.

Mas graças a Renato Gaúcho e Fernando Diniz, o que se viu foi ideias. O Fluminense não abre mão da posse de bola e a saída trabalhada, mesmo que erros na saída e a falta clara de qualidade técnica quebrem as pernas da equipe de vez em quando.

Já Renato também permite que seu time use o talento, se atire à frente, que volantes avancem e que os pontas usem e abusem da verticalidade. O Grêmio, depois de décadas sendo a cara do jogo aguerrido e muitas vezes feio, hoje é um dos melhores times de assistir.

Não há campeonatos para todo mundo, só um time pode ganhar. Por isso só cobrar o resultado e título é idiota. Além disso, que jogo todos vão lembrar? O Palmeiras 1 x 0 Internacional ou esse 5 a 4? O São Paulo 1 x 1 Flamengo ou esse 5 a 4? Aliás, do que você lembra mais fácil desse Campeonato Brasileiro de 2011? Desse jogo entre Santos e Flamengo ou o título do Corinthians?

Claro que o torcedor corinthiano prefere o título a um jogo, mas para o futebol brasileiro é necessário que cada vez mais os fãs, os treinadores e a imprensa (que muitas vezes é um grande instrumento de apoio desse futebol de resultados horroroso) percebam que é necessário ter mais ideias e que a essência de nosso futebol está indo ralo abaixo.

A desgraça de São Paulo e Flamengo

são paulo flamengo
Flamengo e São Paulo deveriam ter entregado mais. Até o árbitro fracassou

Tudo foi ruim nesse jogo. O árbitro não ter expulsado o zagueiro Thuler pelo que fez com Pato foi absurdo. O pênalti de Bruno Alves também foi claro. O VAR não é o culpado, assim como a invenção do carro não é a culpada por alguém bêbado atropelar um pedestre.

Com a vantagem, o Flamengo quis furar a bola e foi pateticamente ao chão, fazendo cera a todo momento. E não dá nem para ficar com muita pena de Cuca porque se ele estivesse nessa situação do Flamengo, faria o mesmo.

A cada queda de goleiro após uma defesa minha alma se envenena. E o futebol morre mais um pouco.

Pegamos algo até natural e elevamos à máxima

É difícil estabelecer quando aconteceu essa mudança no Brasil que passamos a jogar um futebol horroroso que visa resultados mas na verdade não nos trouxe tanto sucesso assim.

Por exemplo, na Copa de 94, era natural optar por um futebol mais tático porque Raí realmente não estava jogando bem e a dupla Romário e Bebeto era autossuficiente. Além disso, o trauma de 82 e os 24 anos sem Copa forçavam a mão. Não foi lindo, mas tudo bem.

O São Paulo de Muricy em 2008 era um time horrível de se ver. Mas o que era considerado um elenco de alto nível colocava Hugo como organizador, Zé Luiz na ala direita, Jean de volante e um ataque com Borges e Dagoberto que não era ruim, mas está longe de povoar os sonhos de qualquer fã do esporte bretão.

Hoje, Palmeiras e Flamengo têm elencos muito, mas muito melhores. O Flamengo tem deficiências na lateral, ok. Mas Bruno Henrique, Gabigol, Everton Ribeiro e De Arrascaeta seriam titulares absolutos nesse São Paulo de 2008.

Pegando o Palmeiras, Dudu deixaria Dagoberto no banco, Felipe Melo jogaria com Hernanes, Gomez atuaria com Miranda e Gustavo Scarpa botaria Hugo no banco.

Eu consigo entender o São Paulo de 2008 abusando do chuveirinho e jogando um futebol limitado. Eu não entendo Palmeiras e Flamengo, mesmo revezando jogadores, não atuando com 30% de toda a qualidade que existe no papel. Tanto que ambos seguem como favoritos para a conquista na Betfair, pagando 3,2 e 5 para 1, respectivamente.

O Fluminense prova que qualquer desculpa, seja de calendário, dinheiro, estrutura, viagens, é um migué sem tamanho. O jogo contra o Grêmio traz lições e será uma das memórias desse Brasileiro, mesmo que ainda estejamos na terceira rodada. Tomara que o campeão seja um time que absorva e saiba aprender.

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