França mostra na Copa da Rússia que intuição vale mais do que a ciência

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Poucos treinadores chegaram para a disputa da Copa do Mundo da Rússia de 2018 sob tantas críticas e desconfiança como Didier Deschamps. Campeão do mundo em 1998 como jogador, ele foi soterrado por pedidos para que a guilhotina, uma ferramenta fundamental na Revolução Francesa, fosse, simbolicamente, usada novamente depois da decisão da Eurocopa de 2016 quando, jogando em casa, a França foi derrotada por Portugal na final.

A Federação Francesa manteve Deschamps no cargo. Isso significou a permanência de seu estilo teimoso – em caso de derrota – ou convicto – em caso de vitória. Com a intuição, ele deixou de fora da seleção o atacante Karim Benzema, que era uma exigência de boa parte da crítica especializada e da torcida. Preferiu formar um ataque com o eficiente Antoine Griezmann, o promissor jovem Kylian Mbappé e o instável Olivier Giroud, capaz de alternar grandes jogadas com lances bisonhos.

Mbappé
Mbappé, que ganhou o prêmio de jogador revelação da Copa do Mundo da Rússia de 2018, seria barrado da equipe francesa pela ‘inteligência artificial’

A combinação feita a partir do instinto do treinador superou, dentro das quatro linhas, a escalação ideal da seleção da França feita a partir de dados científicos.

Técnico inteligente mudaria escalação de Deschamps

O estudo sobre qual seria o time ideal de oito das 32 seleções que disputaram a Copa do Mundo da Rússia foi feita por James Le, aluno de mestrado do Rochester Institute of Technologia (Instituto de Tecnologia de Rochester, Estados Unidos), através de um artigo na plataforma de troca de ideias “Towards Data Science” (Rumo à Ciência de Dados).

Utilizando-se de dados estatísticos, o bacharel em Ciência da Computação na Denison University tentou escalar algumas das principais seleções de futebol do planeta deixando critérios subjetivos de lado e levando em consideração somente os dados de desempenho de cada um dos atletas.

Quem já disputou partidas de jogos de computador como o Fifa Football ou o Fifa Manager pode se declarar um especialista no uso do “técnico inteligente”. Através das características dos jogadores apresentadas pelo produtor do jogo, o usuário tenta criar um time com a maior pontuação possível. Isso abriria maiores chances de vencer os confrontos virtuais.

Captura de tela do artigo publicado por James Le usando dados estatísticos para escalar as melhores equipes de oito seleções que disputaram a Copa do Mundo da Rússia de 2018 – Veja aqui

O que especialista em Ciências da Computação fez foi tentar transformar essa experiência virtual em ferramenta para os duelos dentro das quatro linhas. Para isso, usou justamente a base de dados do vídeo game Fifa 2018 lançado no ano passado para buscar a escalação ideal dois oito times selecionados. Seria algo que os gurus do gerenciamento poderiam apelidar de escalação otimizada.

Essa base de dados contém mais de 17 mil jogadores e concede a eles pontuação em mais de 70 características. A partir dela, Le escalou as seleções ideais de França, Alemanha, Espanha, Inglaterra, Brasil, Argentina, Bélgica e Portugal, que estavam em todas as listas de favoritos ao título na Copa do Mundo da Rússia de 2018.

Trio fatal e defesa sólida seriam barrados

A seleção francesa seria bastante diferente tanto na defesa quanto no ataque se dependesse do técnico inteligente. No setor defensivo, três dos titulares de Deschamps (Pavard, Umtiti e Lucas Hernández) não seriam escalados na Copa do Mundo da Rússia. Seus lugares seriam tomados por, respectivamente, Zouma, Laporte e Kurzawa.

Naturalmente é impossível afirmar categoricamente, uma vez que não há chance de testar a chamada ‘defesa ideal’. Porém, o sólido desempenho do sistema defensivo montado por Didier Deschamps dificilmente seria superado pela escalação indicada pelo técnico inteligente.

No ataque, grau de certeza é ainda maior

Se no sistema defensivo essa impressão é forte, no ataque torna-se quase uma certeza.  A formação ideal de acordo com a ciência de dados não teria o jovem Kylian Mbappé, que ganhou o prêmio de jogador revelação do Mundial da Rússia depois de assinalar quatro gols e ser decisivos em algumas partidas, especialmente na vitória por 4 a 3 contra a Argentina nas oitavas de final. Thauvin, que chegou a ser colocado em campo na Copa e não foi convincente, ficaria com a vaga de titular.

Karim Benzema
Karim Benzema, atacante do Real Madrid, da Espanha, seria titular do ataque da França de acordo com o técnico inteligente

Outro que ficaria de fora seria Giroud.  Seu lugar seria ocupado por Benzema, atacante do Real Madrid. O jogador do clube espanhol é considerado melhor tecnicamente, mas nunca conseguiu formar uma dupla ofensiva eficiente com Griezmann. Afinal, eles têm estilos semelhantes. Gostam de se movimentar pelos lados e voltar para criar jogadas no meio campo. Assim, muitas vezes acabaram atrapalhando um ao outro.

Com Giroud fixo na área, Griezmann ganhou a liberdade de precisava. Dessa maneira, não apenas terminou como artilheiro da França ao lado de Mbappé com quatro gols marcados, como fez assistências para que seus companheiros colocassem a bola na rede.

Seleção da França
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
LlorisGoleiroLloris
ZoumaDefensorPavard
VaraneDefensorVarane
LaporteDefensorUmtiti
KurzawaDefensorLucas Hernández
KantéMeiaKanté
PogbaMeiaPogba
MatuidiMeiaMatuidi
ThauvinAtacanteKylian Mbappé
BenzemaAtacanteOlivier Giroud
GriezmannAtacanteGriezmann

Alemanha é maior fracasso do técnico inteligente

Nenhum a seleção de verdade usou uma escalação mais próxima da feita pelo técnico inteligente do que a Alemanha. Dos 11 jogadores escalados a partir da base de dados utilizadas pelo engenheiro Le, nove foram titulares na Copa do Mundo da Rússia de 2018. Rudiger, que estava na relação do treinador virtual acabou virando titular durante o Mundial, mas não era a primeira opção da defesa.

Joachim Low
O técnico alemão Joachim Low foi o que mais se aproximou de escalar o time ideal de acordo com os dados de desempenho e teve que fornecer muitas explicações para o fracasso de sua equipe

A equipe germânica sem qualquer sombra de dúvida protagonizou o maior vexame do Mundial. Foi eliminada ainda na primeira fase e teve como ponto mais baixo a derrota para a Coreia do Sul, por 2 a 0, na terceira e última rodada da etapa de grupos. Assim, teve que arrumar as malas mais cedo e voltar para casa.

A imprensa alemã revelou durante a disputa uma grave crise de relacionamento no elenco. O técnico Joachim Low preferiu deixar isso de lado e manteve sua estratégia baseada pura e simplesmente no histórico de desempenho de seus atletas – assim como o técnico inteligente. Fracassou.

Seleção da Alemanha
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
NeuerGoleiroNeuer
RudigerDefensorKimmich
BoatengDefensorBoateng
HummelsDefensorHummels
HectorDefensorHector
KroosMeiaKroos
GundoganMeiaTimo Werner (atacante)
KhediraMeiaKhedira
OzilMeiaÖzil
MullerMeiaThomas Müller
ReusMeiaReus

 

Espanhóis usam a mesma estratégia e também caem mais cedo

A seleção espanhola também se aproximou dos números da seleção alemã na coincidência entre a escalação de seu treinador e do técnico virtual. Isso apesar de ter trocado de comandante 48 horas antes do início do Mundial. O técnico Julen Lopetegui foi dispensado pela Federação Espanhola após ter fechado acordo para dirigir o Real Madrid. Assim, Fernando Hierro, que atuava como diretor técnico, foi colocado para tapar o buraco.

Andrés Iniesta
O fenomenal Iniesta não seria escalado na seleção espanhola se dependesse do técnico inteligente

Como não poderia deixar de ser, evitou fazer grandes mudanças e manteve o planejamento estabelecido antes do Mundial. Nove dos 11 titulares de sua equipe seriam os mesmos do técnico inteligente. De mãos dadas o treinador virtual e o real fracassaram ao ver a Espanha ser eliminada pela Rússia nas oitavas de final. Apesar de os russos atuarem em casa, sua equipe era claramente inferior tecnicamente ao time espanhol.

Seleção da Espanha
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
De GeaGoleiroDe Gea
CarvajalDefensorCarvajal
Sérgio RamosDefensorSérgio Ramos
PiquéDefensorPiqué
Jordi AlbaDefensorJordi Alba
Thiago AlcântaraMeiaThiago Alcântara
Sérgio BusquetsMeiaSérgio Busquets
Juan MataMeiaIsco
Cesc FábregasMeiaIniesta
David SilvaMeiaDavid Silva
Diego CostaAtacanteDiego Costa

 

Inglaterra contraria lógica e obtém resultado acima do esperado

Gareth Southgate mostrou severas divergências do técnico virtual. A começar do goleiro. O veterano John Hart foi barrado para a entrada de Pickford. O arqueiro do Everton acabou sendo um dos destaques do English Team, que pela primeira vez desde 1990 conseguiu alcançar a classificação para as semifinais.

Não foi o único que jogou bem não estando no time considerado ideal pela ciência. O defensor Stones – que seria substituído por Cahill; e o lateral Trippier – que perderia o lugar para Rose, também mostraram futebol de alta qualidade ao longo do torneio.

Pickford
Pickford, um dos melhores goleiros do Mundial, seria outro a ficar de fora de acordo com a inteligência artificial

Dos 11 jogadores considerados ideais pelo técnico inteligente, Southgate escalou somente quatro como titulares. Rose e Dier, que estavam no time ideal, chegaram a ser usados, mas ao longo de algumas partidas.

Seleção da Inglaterra
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
HartGoleiroPickford
WalkerDefensorWalker
CahillDefensor Stones
KeaneDefensorMcGuire
RoseDefensorTrippier
LallanaMeiaLingard
DierMeiaYoung
HendersonMeiaHenderson
BarkleyAtacanteSterling
KaneAtacanteKane
Dele AlliAtacanteDelle Ali

 

Técnico inteligente poderia ter mais sucesso no Brasil

Eliminada pela Bélgica nas quartas de final, a seleção brasileira talvez pudesse ter mais sucesso usando o técnico inteligente. Dos 11 atletas do time considerado ideal a partir dos dados do computador, seis foram escalados por Tite como titulares na Copa do Mundo da Rússia.

Esse número seria sete se Daniel Alves tivesse condições de jogo. Ele estava tanto no time ideal como na equipe titular de Tite, mas sofreu uma grave contusão antes do Mundial e teve que ficar de fora.

Douglas Costa
Douglas Costa revolucionou a seleção brasileira quanto entrou em campo, mas nunca deixou de ser um reserva na equipe

A grande diferença na escalação foi apresentada no ataque. O técnico inteligente colocaria Douglas Costa e Jonas tirando o meia Paulinho e o atacante Gabriel Jesus.

No caso de Douglas Costa, a prática mostrou que a teoria estava certa. Os melhores momentos da seleção brasileira na Copa do Mundo da Rússia foram conseguidos quando o atacante da Juventus estava em campo.

Jonas, do Benfica, sequer foi convocado, mas Gabriel Jesus, que perderia sua posição no time de acordo com o técnico virtual, teve uma participação desastrosa no Mundial. No jogo contra a Bélgica, quando o Brasil mais precisou de um homem de área como Jonas, Tite não contava com opções para isso.

Seleção do Brasil
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
EdersonGoleiroAlisson
Daniel AlvesDefensorFágner
Thiago SilvaDefensorThiago Silva
David LuizDefensorMiranda
MarceloDefensorMarcelo
CasemiroMeiaCasemiro
Philippe CoutinhoMeiaPhilippe Coutinho
WillianMeiaWilliam
Douglas CostaAtacantePaulinho (meia)
JonasAtacanteGabriel Jesus
NeymarAtacanteNeymar

 

Técnico virtual provavelmente melhoraria a Argentina

Há um consenso entre a imprensa especializada de que o pior trabalho entre os 32 técnicos que comandaram seleções na Copa do Mundo da Rússia foi o do argentino Jorge Sampaoli. Até mesmo a Federação da Argentina chegou a essa conclusão dispensando o treinador antes do encerramento de seu contrato. Lionel Messi

Titular no time virtual e no real, Lionel Messi não conseguiu salvar a Argentina dos 11 escalados pelo técnico inteligente, Sampaoli colocou somente quatro como titulares de sua equipe. O desempenho do time real foi tão ruim que leva a crer que a equipe de mentirinha conseguiria fazer melhor sem grande dificuldade.

Seleção da Argentina
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
RulliGoleiroFranco Armani
OtamendiDefensor Otamendi
MusacchioDefensorNicolás Tagliafico
GarayDefensorMarcus Rojo
ZabaletaDefensorGabriel Mercado
BanegaMeiaBanega
BigliaMeiaJavier Mascherano,
Rojo (lateral esquerdo improvisado)MeiaEnzo Pérez
Di MariaMeiaDi Maria
HiguainAtacantePavón
MessiAtacanteMessi

 

Bom desempenho belga faz balança tender para técnico real

As seleções da Bélgica e de Portugal completaram o grupo de oito times que ganharam escalações ideais a partir dos dados científicos. No caso dos belgas, que conseguiram sua melhor colocação em uma Copa do Mundo ao alcançar o terceiro lugar, dos 11 do time ideal, sete foram usados como titulares pelo técnico Roberto Martinez.

A análise das trocas permite dizer que Martinez acertou. Na direita, Meunier foi um dos principais atletas da Bélgica ao longo do Mundial. Superou o que poderia ser esperado de Foket, que seria o escalado pelo técnico inteligente.

Meunier
O lateral Meunier, que teve excelente desempenho na Copa, ficaria de fora se os dados estatísticos fossem determinantes para escalar a seleção

Ainda na defesa, mas no miolo de zaga, Kompany certamente mostrou mais futebol que Vermalen,  que também chegou a atuar durante o Mundial e formaria o 11 titular de acordo com os dados estatísticos.

No meio, Carrasco teve uma participação que pode ser considerada boa. Moussa Dembelé, que seria o titular ideal, dificilmente conseguiria uma melhoria muito significativa. No caso de Nainggolan essa diferença poderia ser maior. No entanto, o atleta não foi barrado por deficiência técnica, mas por questões disciplinares, algo que não é levado em consideração pelo técnico virtual.

Seleção da Bélgica
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
CourtoisGoleiroCourtois
FoketDefensorMeunier
AlderweireldDefensorAlderweireld
VertonghenDefensorVertonghen
VermaelenDefensorKompany
Moussa DembeléMeiaCarrasco
NainggolanMeiaFellaini
WitselMeiaWitsel
De BruyneMeiaDe Bruyne
Eden HazardMeiaHazard
Romelu LukakuAtacanteLukaku

Em relação a Portugal, mudanças importam pouco

No caso da seleção de Portugal, que conseguiu se classificar com muita dificuldade para as oitavas de final e acabou caindo diante do Uruguai, a comparação entre o técnico virtual e o  treinador Fernando Santos acaba, na prática, tendo pouca importância.

Cristiano Ronaldo
Cristiano Ronaldo estava entre os titulares reais e virtuais de Portugal, mas não foi suficiente para levar o time até as fases mais importantes

Dos 11 escalados como time ideal, seis foram usados pelo técnico de verdade na Copa do Mundo da Rússia de 2018. Porém, quando se trata da seleção lusitana, o único que realmente faz diferença é Cristiano Ronaldo, agora jogador da Juventus, da Itália. Naturalmente, ele estava presente nas duas listas. Em relação aos outros dez, quem se importa?

Seleção de Portugal
Técnico inteligentePosiçãoTécnico real
A. LopesGoleiroRui Patricio
Nélson SemedoDefensorCedric
PepeDefensorPepe
José FonteDefensorFonte
AntunesDefensorRaphael
William CarvalhoMeiaWilliam Carvalho
Danilo PereiraMeiaJoão Moutinho
Bernardo SilvaMeiaBernardo Silva
João MárioMeiaJoão Mário
NaniAtacanteGonçalo Guedes
Cristiano RonaldoAtacanteCristiano Ronaldo