A forma como o Corinthians joga não é só um problema para agora

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O primeiro jogo da final do Campeonato Paulista foi duro de assistir. Depois de ter sobrevivido ao bombardeio que o Santos impôs na segunda partida da semifinal do Estadual, o Corinthians não mudou muito de seu plano de jogo para atuar no Morumbi.

Pelo resultado, deu certo. E é provável que o time de Fabio Carille vença o tricampeonato Paulista e o troféu faça o torcedor esquecer e alguns analistas legitimarem esse tipo de futebol. O preço não é pago agora e sim de quatro em quatro anos.

Primeiro, uma explicação

Primeiro de tudo, não é um texto Anti-Corinthians. O Palmeiras ganhou um título brasileiro com Cuca onde a bola não era bem tratada. O Santos se fechou em casa, em plena final de Paulista, contra um Audax que mesmo com time infinitamente inferior dominou aquela partida. O São Paulo em 2008 também jogou um futebol bem pobre rumo ao seu tricampeonato brasileiro.

Como deu para perceber, esse jogo pobre, sem a bola, sem imaginação, criatividade e tudo que fez o futebol brasileiro ser admirado, rendeu títulos. Até Copa do Mundo ganhamos jogando “feio”. O problema de jogar assim não é a falta de resultados: é não conseguir dominar, se destacar, encantar e ter resultados a longo prazo.

Este texto aqui não é nem anti-defesa no futebol. Diego Simeone tem bons resultados no Atlético de Madrid subindo o paredão. E poderia, perfeitamente, ter colocado um título de Champions League junto com a conquista do Campeonato Espanhol de 2013/14.

Mas o Atlético não tem o mesmo poder financeiro que Real Madrid, Barcelona e as potências europeias. O Atlético tem uma defesa sólida, mas um meio de campo que joga, é vertical e trouxe bons jogadores para o holofote, como Koke.

Esse Corinthians de Carille não trará legado algum. É um time que não troca três passes. Não sofreu tanto contra o São Paulo como contra o Santos porque o Tricolor é um time mais fraco, ainda se formando e tentando achar sua identidade sem os veteranos de 2018. O time era favorito para a conquista e quando as odds abrirem na Betfair, com certeza sua vitória pagará menos que a do Tricolor.

O que jogamos aqui tem toda a relação com as Copas

Os treinadores brasileiros não chegam à seleção depois de uma passagem pela Europa. Isso quer dizer que o próximo comandante da seleção, quando Tite sair, virá de algum clube daqui. E não é estranho pensar que Carille é um grande candidato.

Agora eu pergunto e até o mais fanático corinthiano pode responder: você confia em Carille para dar um nó tático em algum treinador de seleção boa em Copa do Mundo? Só lembrar que Tite, uma unanimidade no Brasil, foi enrolado por Roberto Martinez, treinador do Swansea, Wigan e Everton, antes de pegar a Bélgica. Quando Tite acordou estava 2 a 0 para os belgas em plena quartas de final da Copa.

Se a resposta de Carille ao encarar times, que tem até menos qualidade técnica, nos clássicos fora de casa, é não tocar na bola e segurar um 0 a 0, eu tenho medo do que a seleção brasileira irá passar.

Não estimulamos talento; na verdade, não estimulamos nada

corinthians gustavo
Gustagol tem mais a oferecer? Acho que não vamos saber

Jogar dessa forma não estimula o talento. Pedrinho não terá evolução, assim como Matheus Vital. Mesmo que Gustagol faça gols, nós não sabemos se ele tem mais no tanque só dando casquinha e brigando por tiro de meta.

Você pode dizer que eles não têm muito talento para começar, mas os times da Europa já perceberam que para realmente desenvolver um jogador brasileiro, eles precisam contar com ele o mais rápido possível.

Quantas oportunidades perdemos com isso? Felipe Anderson não foi bem desenvolvido por Muricy Ramalho. Na Europa ele pode gerar mais uma negociação multimilionária em algumas semanas.

Marquinhos era mal usado por Tite no Corinthians até ser vendido por trocado para a Roma. Vinicius Junior teve seus brilhos no Brasil, mas ele chegou no Real Madrid com claras deficiências de formação técnica. Rodrygo, mesma coisa.

Claro que a culpa não é só dos treinadores. Mas não ajuda o fato que o futebol jogado no Brasil valoriza o atacante que marca o lateral, o meio-campista que arma como volante e marca como meia e que qualquer falta cavada demora um minuto para cobrar, porque a bola vai viajar 30 metros até a área para algum zagueiro brincar de atacante.

Resumo da história

Aos poucos nós fomos perdendo a identidade. Os jogadores brasileiros não são formados mais como antigamente. Quando eles sobem para o profissional, os treinadores não sabem usá-los de forma minimamente inspirada. E se eles forem para fora do país, vai caber a um francês, espanhol, italiano, ter o trabalho de formação.

Aí de vez em quando o treinador da seleção brasileira – que era um dos técnicos que fazia um arroz com feijão sem graça e sem tempero em um clube do Brasil, só para encher o estômago – chama ele para uns amistosos enganadores. Quando a Copa do Mundo chega, nossa seleção é só mais uma.

Por isso que nós temos que cobrar desde o começo dessa cadeia. O Flamengo com seu elenco multimilionário, o Palmeiras com seus três jogadores por posição, o Santos e São Paulo com suas bases, o Grêmio, Cruzeiro e Inter com suas histórias, todos eles têm obrigação de mostrar algo, de trazer um futebol com conteúdo.

Não interessa se o 0 a 0 for trazer um título. O Corinthians não pode jogar como um time pequeno do interior. Até porque clubes como o Red Bull Brasil mostraram mais nos últimos meses que um entidade com folha salarial na casa dos milhões e 100 anos de história.

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