Colocado na parede, Flamengo precisa mostrar futebol no Campeonato Brasileiro

246
Flamengo comemora

Desde que a gestão do presidente Bandeira de Mello assumiu o Flamengo, muita coisa mudou no Flamengo, especialmente a percepção de completa bagunça que era marca do clube por décadas. As finanças foram sanadas e o rubro-negro finalmente conseguiu monetizar a maior torcida do Brasil. Mas em campo, apesar do investimento gigantesco, os fracassos estão empilhando. E a torcida não aguenta mais.

Os mais tradicionalistas argumentam que quem comemora faturamento e renda é banco e vendo o Flamengo jogar, não dá para discordar disso. O dinheiro investido em salários como o de Diego, Diego Alves, Everton Ribeiro e outros jogadores não teve justificativa técnica até o momento. E vários treinadores que passaram pelo Ninho do Urubu não conseguiram de forma constante tirar o suco da laranja.

E esse cenário todo causou uma regressão do Flamengo: o vice de futebol, Ricardo Lomba, reclamou publicamente do treinador Paulo César Carpegiani e do futebol apresentado. E no fim o treinador, mesmo sendo um grande nome da história do clube, acabou perdendo o cargo junto com o dirigente Rodrigo Caetano. Bandeira de Mello teria ouvido Lomba para não perder apoio político.

O problema é que uma semana antes do começo do Campeonato Brasileiro o Flamengo, que era para começar a competição como favorito, sequer tem um treinador. Mauricio Barbieri, que faz parte da comissão técnica fixa do clube, deve fazer essa função por enquanto. Mas ele não era o grande desejo de consumo, que parecia ser Renato Gaúcho. O comandante campeão da América, entretanto, agradeceu a proposta do rubro-negro mas quis ficar no Grêmio. Cuca, que já trabalhou no clube em uma passagem nada positiva, tem rejeição de parte da diretoria. Abel Braga não quis deixar o arquirrival Fluminense.

A questão do Flamengo é maior que treinador

O Flamengo há anos e anos é uma porta giratória de treinadores e se Bandeira de Mello conseguiu arrumar a desorganização financeira, que era marca do clube, não conseguiu fazer uma revolução no comando da equipe profissional. Desde 2013, quando ele assumiu a presidência, 12 treinadores passaram pelo cargo.

E pior: não há um padrão. Jayme Almeida e Zé Ricardo se encaixam no grupo de pratas da casa e que, curiosamente, foram os de maior sucesso. Muricy Ramalho e Vanderlei Luxemburgo foram trazidos e apresentados como nomes de maior peso, com grande experiência. Mano Menezes e Dorival Junior como treinadores de sucesso recente. Enfim, todos os testados não duraram.

Há alguns títulos para chamar de seu, como o Campeonato Carioca de 2014 e 2016 e a Copa do Brasil de 2013, mas muito pouco para uma equipe com tamanha vantagem para montar elencos e seduzir jogadores de peso.

Atualmente o elenco conta com diversos nomes que seriam titulares em outros times. Diego e Everton Ribeiro são jogadores de qualidade, com o primeiro tendo uma carreira sólida desde que surgiu no Santos e o segundo brilhando no Cruzeiro nos títulos brasileiros de 2013 e 2014. Mas no Rio, ambos ainda devem muito futebol. E a lista não para por aí, deixando a equipe refém de apenas momentos de brilho de seus melhores jogadores. O curioso é que Everton, que tem menos grife que vários jogadores desse elenco, e o jovem Lucas Paquetá são os que têm mais regularidade e podem ser considerados confiáveis.

Ou seja, a questão aqui não é só o treinador. A hipótese mais provável é um erro na construção do elenco e sobrevalorização de jogadores que não apresentam o futebol que é esperado deles. Com um novo responsável pelo futebol e mais um treinador chegando, veremos se o padrão dos últimos anos se mantém.

O que o Flamengo apresentará no Campeonato Brasileiro?

O Flamengo começará o campeonato como a maior incógnita. Como dito acima, pela técnica de alguns jogadores – mesmo dormente no momento -, a força de sua torcida e seu poderio financeiro, podendo reforçar o elenco a qualquer momento, o time deveria ser tão favorito quanto Palmeiras, Corinthians e Grêmio. Mas os três apresentam futebol que justifica esse status nos últimos meses. O Flamengo, mesmo tendo chegado na final da Sul-Americana e Copa do Brasil no fim de 2017, não pode dizer o mesmo.

E, claro, não ajuda também a aparente indecisão na posição de treinador, apesar da mensagem pública ser de apoio a Barbieri.

O Flamengo estreia no Campeonato Brasileiro contra o Vitória, mesmo rival e palco de um dos jogos mais incríveis da edição 2017 da competição. O Flamengo venceu o jogo no fim e parecia derrubar o time mandante com um gol de pênalti no fim, mas o Vitória se salvou com a derrota do Coritiba também nos últimos instantes. A 2ª rodada será contra o América-MG em casa na despedida do ídolo Julio César, em jogo já marcado para o Maracanã. Ou seja, dois rivais claramente inferiores e a possibilidade de seis pontos logo de cara para espantar a crise.

Mas como tudo no Flamengo é mega, ultra, macro, um tropeço pode significar ainda mais pressão para esse elenco, que parece sempre viver no fio da navalha. A 3ª rodada contra o Ceará e a 4ª rodada recebendo o Internacional seguem a mesma toada e revelam uma coisa curiosa: dos quatro times que o Fla pega para iniciar o campeonato, três vem da Série B e o Vitória se salvou do rebaixamento por basicamente um milagre.

Os desafios maiores pré-Copa do Mundo começam mesmo na 6ª rodada em um duelo contra o Vasco, na 9ª recebendo o atual campeão brasileiro Corinthians em casa, Fla-Flu na 10ª rodada e Palmeiras, em São Paulo, na 12ª rodada.

E o time ainda vai ter que encarar nos dois meses antes da parada para a Copa o resto dos jogos do Grupo 4, considerado como um dos mais difíceis da Libertadores: Santa Fé em casa e fora, Emelec em casa e por fim, no dia 23, o duelo mais complicado, contra o River Plate na capital argentina.

Com que time?

Já sabemos que o treinador é mistério, podendo ser o Barbieri até a Copa do Mundo e além ou algum outro nome até mesmo amanhã. Já o time dá para ter uma boa ideia. Diego fez dois gols no amistoso contra o Atlético-GO, um de cobertura, e continuará sendo o maestro da equipe.

Éverton pela esquerda e Everton Ribeiro na direita vão ajudar Diego a municiar o centroavante, que por enquanto continua sendo Henrique Dourado. Mas isso pode logo mudar, já que Paolo Guerreiro deve voltar após sua suspensão por doping ser reduzida.

Vinicius Junior continuará sendo usado no segundo tempo, mas pode logo pedir passagem, ainda mais se repetir o que fez contra o Emelec na vitória do Flamengo fora de casa.

Vinicius Junior Flamengo
Vinícius Júnior mostrou seu valor contra o Emelec. Mas ainda não será titular do Flamengo

Na lateral esquerda, Miguel Trauco deve ser a única novidade no sistema defensivo, podendo ganhar mais minutos com Barbieri, após ver Renê assumir a posição na era Carpegiani, mas não dar confiança aos torcedores.

Ou seja, o time está mais ou menos desenhado desde já. Mas ele precisa jogar mais bola. Muita mais bola. O Flamengo tem mais interrogações do que deveria, mas ainda tem talento para ser muito respeitado em qualquer estádio que pisar neste Campeonato Brasileiro.