Não há discussão: Messi e Cristiano Ronaldo são os maiores pós-Pelé

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Lionel Messi Cristiano Ronaldo
Não adianta fugir... dessa comparação baby

Na terça-feira, Cristiano Ronaldo pegou uma das melhores defesas da Europa e fez uma desvantagem de 2 a 0 evaporar com seus três gols. No dia seguinte, Lionel Messi, contra um rival inferior, é verdade, fez dois gols e deu duas assistências.

Assim como você, eu também curto e sigo tudo sobre futebol no Facebook. E sempre vejo, mesmo que seja pela centésima vez, vídeos de futebol e atuações incríveis, especialmente do fim dos anos 90 e anos 2000. Foi o que cresci vendo.

Então me peguei vendo mais um registro – Rivaldo contra o Valencia, o da bicicleta na entrada da área – quando me veio algo que estava na minha cabeça, mas finalmente claro para racionalizar.

Tudo o que nós lembramos de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Romário, Zidane, Maradona… Messi e Cristiano Ronaldo fizeram igual ou melhor por mais vezes e mais anos.

O argumento do auge

A minha geração (22 a 35 anos, por aí) vai para sempre ser fascinada por Ronaldinho Gaúcho. O que ele fez nas temporadas 2004/05 e 2005/06 está cristalino na nossa memória, porque foi algo sobrenatural. Odeio o uso da palavra gênio, especialmente quando jogada para todos os lados. O que mais consigo pensar em Ronaldinho é artista. Ele dava o seu toque, ele entrava em campo para criar sua obra.

É curioso que ele obviamente fez partidas memoráveis, mas o que fica mais na cabeça são lances: o gol contra o Chelsea na entrada da área, o gol contra o Milan de esquerda, os chapéus contra o Athletic de Bilbao ou o gol contra o Real Madrid deixando Sergio Ramos na saudade.

Mas o trágico é que durou pouco. Na verdade, durou o suficiente, dois anos naquele nível é mais do que 99,9% dos craques. Aí você pode se juntar a muitos que acham que ele desistiu de jogar, perdeu o tesão, enfim.

Messi e Cristiano Ronaldo nunca foram tão plásticos, isso não há dúvidas. Mesmo que os dois saibam driblar, com Messi sendo o rei do corte seco e o português mostrando sua habilidade quando era jovem (e provocador). Mas o arsenal de Ronaldinho era imbatível.

Agora, se você se amarra em auge para justificar que Ronaldinho é melhor que os dois, esquece.

Lionel Messi começou seu auge, na minha opinião, com 21 anos, na temporada 2008/09. Essa foi a primeira temporada de Pep Guardiola e o Barcelona conquistou tudo com seu meio-campo inacreditável e 38 gols e 17 assistências do argentino em 51 jogos.

Números absurdos né? Vamos aos próximos anos para eu te provar que esse auge dura 10 anos, algo nunca antes visto a não ser com um certo camisa 10 nosso.

  • 2009/10: 47 gols e 11 assistências em 53 jogos
  • 2010/11: 53 gols e 23 assistências em 55 jogos
  • 2011/12: 73 gols (facada no baço) e 29 assistências em 60 jogos
  • 2012/13: 60 gols e 15 assistências em 50 jogos
  • 2013/14: 41 gols e 14 assistências em 46 jogos
  • 2014/15: 58 gols e 27 assistências em 57 jogos (mais gols que jogos)
  • 2015/16: 41 gols e 23 assistências em 49 jogos
  • 2016/17: 54 gols e 16 assistências em 52 jogos
  • 2017/18: 45 gols e 18 assistências em 54 jogos
  • 2018/19: 36 gols e 18 assistências em 36 jogos (até o dia 14/03)
Lionel Messi
Os números de Messi não tem paralelo com nenhum jogador. A não ser Cristiano Ronaldo e Pelé

Ronaldinho Gaúcho em sua primeira temporada de melhor do mundo teve 13 gols e 16 assistências em 42 jogos. Na segunda, que foi a da conquista da Champions League, foram 26 gols e 24 assistências em 45 jogos.

Dá para argumentar o que for. A companhia de Messi até foi melhor em alguns anos, mas Ronaldinho jogou com Samuel Eto’o em seu auge, Deco em seu auge, Xavi já em altíssimo nível e em suas últimas temporadas com Iniesta, Thierry Henry e Messi.

E se vamos falar de momentos, Messi já teve vários de brilhantismo à la Ronaldinho. Os três gols contra o Real Madrid com 20 anos de idade, o gol contra o Real Madrid driblando três na semifinal da Champions, o gol contra o Bayern deixando Boateng no chão (parecido com o de Ronaldinho contra o Real), o gol contra o Getafe driblando desde o meio de campo… isso pensando rápido.

Ronaldo e Ronaldo

É sensacional que em 2019 dê para fazer a comparação de Cristiano Ronaldo com Ronaldo Fenômeno, sendo que em 2008, quando ganhou seu primeiro troféu de melhor do mundo, ele era um jogador de ponta de campo.

Sua transição para a área não foi do nada. No final de sua passagem pelo United ele foi aumentando sua presença perto do gol e pulou de 23 gols em 2006/07 para 42 em 2007/08. O United foi campeão da Champions League nesse ano.

Mas foi no Real Madrid que sua fome de gols ficou evidente e ele não parou mais. Foram 33 na primeira temporada, 53 na segunda, 60 na terceira e a lista continua. O máximo foi 61 em 54 jogos na temporada 2014/15.

A melhor temporada em clubes de Ronaldo foi inegavelmente sua única em Barcelona, quando fez 49 jogos e 47 gols, inclusive 34 em 37 jogos na Liga Espanhola. Cristiano Ronaldo teve 5 temporadas com 34 gols ou mais na La Liga.

A carreira de Ronaldo é sempre complicada de analisar porque no primeiro parágrafo temos que colocar as lesões que ele sofreu e superou. Mas isso, querendo ou não, é mais um ponto para elevar Messi e Cristiano Ronaldo a outro patamar. Eles raramente se machucam e consistentemente jogam mais de 50 partidas na temporada pelos seus clubes.

Um dos vídeos que mais surgem de Ronaldo é com a camisa do Real Madrid, em Old Trafford, mandando ver no United, com três gols, dois lindos, em uma vitória por 4 a 3. Incrível, sensacional mesmo. Que DEUS era Ronaldo.

Cristiano Ronaldo teve uns cinco jogos assim. Neste meio de semana foi um. E o jogo contra a Juventus na temporada passada, com até gol de bicicleta? Contra o Bayern nas quartas em 2017, a final da Champions contra a Juventus e até o jogo contra o Arsenal nas semis em 2009.

As atuações históricas de Cristiano Ronaldo podem ser empilhadas

E os números de gols então… em 2002/03, sua primeira temporada no Real, ele teve 44 jogos e 30 gols. Com Zidane, Roberto Carlos, Raúl e Figo de companhia. Nas mesmas competições, no mesmo time e com um papel até mais próximo do gol, já que CR7 sempre jogou com Benzema.

Um breve adendo

Passando para uma análise mais bola no pé. Cristiano Ronaldo começou a carreira como um ponta habilidoso, que até passava do limite nos dribles e provocações. Ele foi ganhando corpo, sua perna direita cada vez mais potente. Entrou na área, começou a fazer gols de direita, esquerda e se tornou um exímio cabeceador. Seu posicionamento, se não é o melhor que existe, não sei qual é.

Messi começou a carreira jogando na ponta também, oposto a Ronaldinho e com um centroavante no meio (normalmente Eto’o). Com Guardiola passou a ser um falso 9, algo que foi muito imitado, mas nunca superado. Cansou de fazer gols. Ele depende da canhota, é verdade, mas já fez inúmeros gols de direita e gol em final de Champions de cabeça. Por volta de 2014 virou o rei da meia-esquerda e hoje ele simplesmente joga, flutuando pelo campo e pegando a bola direto dos volantes. Tornou-se um sensacional cobrador de faltas. Tem uma visão de jogo sem paralelo.

Os argumentos e contra-argumentos

Para mim, os argumentos que colocam Cristiano Ronaldo e Messi no patamar mais alto no pós-Pele são dois: números e duração do auge.

Os jogadores citados aqui, como Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, mas também Maradona, Platini, Cruyff, Romário, Rivaldo, Zidane, tiveram conquistas maravilhosas, auges incríveis e atuações memoráveis.

O que diferencia os dois é a duração desse auge, que até pode ter temporadas um pouco menos incríveis, mas eles sempre são os melhores do mundo. A pior temporada do Messi desde sua sequência insana teve 41 gols e 14 assistências em 46 jogos. Essa seria a melhor temporada da maioria dos grandes da história.

O contra-argumento mais usado, especialmente contra Lionel Messi, é a Copa do Mundo.

Sim, ele realmente não joga bem pela Argentina. E vou aqui desconsiderar a bagunça completa da AFA. O fato dele ter tido Maradona como treinador em uma Copa. O fato de Higuaín ter acabado com a chance de Messi ser campeão do mundo. Ou Aguero, que joga muito no City há mais de meia-década, ser um 0 com a Argentina.

Vou dar essa imensa colher de chá. A verdade é: uma competição como a Champions vale mais que a Copa do Mundo hoje.

Sim, a Copa do Mundo acontece só de quatro em quatro anos. É mágica. Somos penta. Tudo muito legal.

Mas com a Lei Bosman e o aumento de estrangeiros jogando na Europa, algo que aumentou exponencialmente no final dos 90 e anos 2000, os principais times da Europa são seleções. E eles podem escolher os melhores do mundo em cada posição.

Em 2002, quando ganhamos a Copa, aquela seleção era basicamente metade jogando aqui, metade jogando no Velho Continente. O Vasco em 98 fez jogo parelho com o Real Madrid. Um ano depois, mesma coisa do Palmeiras com o United. Hoje, quem é bom, joga lá. E joga a Champions.

E é na Champions que você pega Pep Guardiola, Zinedine Zidane, Jurgen Klopp, Mauricio Pochettino. A primeira linha dos treinadores, treinando todos os dias os melhores jogadores de todo o mundo, jogando nas suas casas com a melhor preparação.

Não uma competição de sete jogos, jogada depois de uma temporada inteira de batalhas, com equipes que treinaram juntas por três semanas depois de quatro anos se vendo a cada três meses. Com treinadores de terceiro e quarto escalão. Em território neutro.

E com certas equipes não podendo passar por cima de um limite imposto pela geografia: serem países pequenos que não produzem tantos jogadores. Portugal é um exemplo.

Lionel Messi
Falta mais para Messi com a Argentina. Mas isso não pode ser o principal parâmetro. Nem o segundo ou terceiro

Hoje a Champions League é um parâmetro muito melhor que a Copa do Mundo para definir quem é bom e quem não é. Pelé hoje até poderia ter uma Copa conquistada, já que o Brasil segue potência. Mas ele seria valorizado mesmo se tivesse uma ou duas orelhudas. Cristiano Ronaldo tem cinco. Lionel Messi tem quatro.

Messi e Cristiano Ronaldo fizeram todos os parâmetros subirem. Uma atuação de gala ser algo esperado. Ter quase média de um gol por jogo ser normal. Eles estão duelando há mais de uma década no topo do esporte. Ronaldinho Gaúcho foi de melhor do mundo em 2004 para jogador do Querétaro em 2014.

Isso não faz ele ser menos gênio. Mas tem que fazer você perceber que o argentino, camisa 10 do Barcelona, e o português camisa 7 da Juventus, estão um patamar acima. Um patamar acima de todos.

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