Sampaoli mostra como estamos atrasados com apenas três jogos

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Uma pessoa de compreensão normal já teria entendido há pelo menos 15 anos que estamos muito atrasados no futebol brasileiro. Não é só questão de estrutura, organização e dinheiro, já que o Brasil melhorou nisso, apesar de ainda ser abaixo do potencial.  Nós não acompanhamos as principais forças europeias no campo mesmo, na bola. Nem precisa ir para 2014, só ver a Copa de 2018.

Distribuir a culpa é até fácil: todos os envolvidos têm culpa, especialmente a CBF, federações e dirigentes de clubes. Mas treinadores, jogadores e imprensa também tem sua (grande) parcela. A principal culpa: não perceber essa decadência e agir como se tudo continuasse igual, como se ainda fossemos referência. Como se o Dudu fosse melhor que o Dembele.

Por algumas semanas a imprensa ficou repercutindo a necessidade que Jorge Sampaoli deixou clara de um goleiro que jogue com os pés. Vanderlei nunca foi bom nesse quesito. Críticas choveram sobre o argentino, que estaria “desrespeitando” o ídolo santista. Primeiro, Vanderlei é um bom goleiro, todo santista vai concordar. Ídolo ele não é, ou pelo menos não para a maioria da torcida. E seu 2018 não foi como outros anos até embaixo das traves.

E assistindo qualquer jogo da elite do futebol, você nota a necessidade do goleiro sair com o pé. Mérito do goleiro santista por ter percebido isso e por Sampaoli ter trazido essa necessidade e dado um voto de confiança. Ontem contra o São Paulo ele foi vital. Aliás, ele só jogou com os pés, já que o tricolor não deu um chute no gol.

Não foram poucos os comentaristas que criticaram o Santos por trazer o carequinha de 58 anos. “Ah, ele foi mal na Copa do Mundo pela Argentina”. Não vou nem dizer quem foi mal de verdade em Copa do Mundo, é claramente ultrapassado e hoje é idolatrado pela imprensa pelo seu “excelente” trabalho com um elenco multimilionário que levou uma sova de um Boca Juniors mediano.

O Santos que entrou em campo ontem contra o São Paulo é o time que foi o décimo colocado do Campeonato Brasileiro com um treinador de primeiro patamar do Brasil (Cuca). Sem três dos quatro melhores jogadores de 2018 – Gabriel, artilheiro do Brasil, Dodô e Rodrygo (seleção sub 20), Carlos Sanchez ficou – e que acabou de vender seu jogador mais habilidoso: Bruno Henrique.

Aliás, Bruno Henrique não jogou absolutamente nada em 2018. Quem culpa sua lesão no olho deveria perceber que ele voltou a jogar antes da Copa do Mundo. E depois da Copa teve mais 5 meses de jogos.

Breve parada para falar do Flamengo

Bruno Henrique Flamengo
Bruno Henrique começou bem sua passagem pelo Flamengo. Mas o rubro-negro ainda não convence

Sim, eu sei que o Bruno Henrique fez os dois gols da virada do Flamengo. Ele é um bom jogador e provou isso em 2017. Mas ele não é craque. E 23 milhões é um preço salgado. E não adianta nada trazer jogadores de 20, 44 milhões e terminar um jogo contra um Botafogo limitadíssimo com três volantes. Isso não sou só eu reclamando, olha o Mauro Cezar Pereira.

É isso que quero dizer com “não adianta ter três jogadores por posição”. Claro que isso ajuda, mas o Corinthians em 2017 ganhou o Campeonato Brasileiro sem ter grande elenco. Não adianta ter grande elenco se você não se propõe a ser dominante, se não traz algo de novo e se tem um monte de jogadores que recebem mais do que devem.

Porque jogando dessa forma limitada, você até pode ganhar um Campeonato Brasileiro como Felipão ganhou, mas corre riscos na passagem de um ano para outro, com perda de peças – já pode ver a saída de Bruno Henrique (volante), ou se no caso de Felipão, existir desgastes com diretoria ou jogadores.

Agora, se você tem uma ideia de sistema de jogo, ele é moderno e você sempre busca aprimorar isso e continuar sendo referência, sua ideia dura muito mais. Só ver como o Palmeiras ganhou a Copa do Brasil com Marcelo Oliveira mas caiu de forma vergonhosa na Libertadores. Como ganhou com Cuca mas não passou o sucesso para o ano seguinte. Como fracassou com Roger Machado… E o clube continuava com dinheiro e elenco numeroso. Não é só ter dinheiro, elenco e estrutura. O Palmeiras pode mais.

dudu palmeiras comemora
O Palmeiras pode mais. Jogar mais bonito, ser mais dominante e ganhar títulos ainda maiores

Voltando…

O São Paulo colocou em campo seu ataque com Pablo (26,5 milhões), Everton (16 milhões) e colocou Diego Souza no intervalo (10 milhões). O Santos começou o jogo com Derlis Gonzalez, moeda de troca em uma negociação que levou o mediano Vitor Bueno para a Ucrânia. É uma piada que o tricolor tenha tomado um baile de não chutar uma bola no gol, ter 36% de posse no primeiro tempo e ver o 2 a 0 ficar muito, mas muito barato. E era favorito na Betfair, pagando menos pela sua vitória (2,5 para 1) que para a vitoria do Santos (2,75).

Ou seja, Sampaoli não tem elenco, a diretoria do Santos faz a palavra bagunça não começar nem a descrever metade do que acontece, está há um mês trabalhando e levando bombardeio da mídia. E mesmo assim fez jogadores responderem em campo e ficar claro sua ideia de jogo.

Não é só ter posse de bola, é sair com qualidade com o volante se aproximando do goleiro, os dois laterais subirem e sempre existir duas opções de passe. É perder a bola e recuperar ela em cinco segundos ou menos. É bater o lateral rápido, não esperar o lateral (posição) chegar. É bater falta rápido para pegar a defesa desprevenida. É fazer 1 a 0 e querer fazer 2 a 0, não recuar e explorar contra-ataques. É fazer 1 a 0 e não mandar o goleiro cair com “dores”, cavar falta atrás de falta.

Felipão, Mano Menezes (Cruzeiro), Abel Braga ganham mais de meio milhão de reais por mês. E tem elencos milionários. Não adianta ter três opções por posição para fazer 1 a 0 e se retrancar, não ter uma jogada no ataque, quebrar a bola com o goleiro e mandar seu jogador cair no campo quando for substituído. Esses caras ganharem título pelo mínimo denominador comum não é algo a se comemorar.

A questão aqui não é só se Sampaoli vai ganhar. Até porque é capaz dele sair antes disso pela vergonha que é a atual diretoria do Santos. A questão é que ele expôs que nosso futebol é ultrapassado. Seu principal mérito será ele fazer o futebol brasileiro perceber que a bola é amiga. E o torcedor cobrar que os dinossauros que chamamos de treinadores entendam que seu trabalho é treinar um time e jogar bem, não ser um palestrante motivacional e gritador de “pega, pega, pega” nos treinos e jogos.

Nós ainda produzimos os jogadores. Dudu é um excelente jogador, não me entenda mal. É uma pena que no futebol brasileiro atual ele esteja perdendo tempo. Tomara que isso mude com treinadores verdadeiramente modernos e que gostem de jogar futebol. Jorge Sampaoli é um deles. Dá para contar nos dedos os outros do Brasil.

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