França precisa evitar 2016; Croácia necessita Modric solto e gasolina no tanque

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luka modric

Vinte anos e oito dias depois, França e Croácia vão entrar em campo juntas para se enfrentar em uma partida de peso enorme. Na Copa de 1998, foi uma semifinal. Em 2018, o vencedor do jogo levantará o troféu de campeão do mundo.

Por razões óbvias não há muitas relações a fazer, já que todos os jogadores que colocaram um uniforme em 98 estão aposentados da vida de atleta. Mas essas duas gerações foram tão marcantes que Didier Deschamps, volante incansável, se tornou o treinador da seleção francesa.

E Davor Suker, atacante brilhante que foi o artilheiro daquela Copa, é o presidente da federação croata de futebol.

No segundo round entre os dois países, a seleção da França entra como favorita, por vários motivos que explicaremos abaixo. Mas algo similar aconteceu em 2016, com final triste para os franceses.  E tem algo nessa Croácia que está deixando o mundo do futebol com a pulga atrás da orelha. Como eles aguentaram, literalmente, ir até longe. Não é só ter chegado nas finais, mas emendando três prorrogações e duas disputas por pênaltis em apenas 10 dias.

Bom, vamos aos tópicos que me estendi demais na introdução já.

A França vai ter que encaixotar Modric

Não há dúvidas quem é o maior jogador da Croácia. O goleiro Subasic teve momentos brilhantes, especialmente nos pênaltis. O atacante Mandzukic foi o herói da classificação para a final e joga em gigantes europeus há anos. Rakitic é um excelente meio-campista, que ainda não teve seu grande jogo na Copa.

Mas é o raquítico Luka Modric que é a estrela do time. Mesmo no meio de gigantes ele domina todo o ritmo do jogo e raramente uma jogada começa e termina sem ter passado por seus pés. Sem ele, não existe Croácia.

E Didier Deschamps vai ter que se virar para marcar ele. N’Golo Kanté, o melhor primeiro volante do mundo na atualidade, não pode simplesmente ir dar combate a todo momento porque Modric se move por todo o campo. Paul Pogba precisa criar, não pode só ficar de olho no jogador do Real Madrid.

A melhor ideia é usar os três jogadores de meio – os dois citados mais Matuidi – para “encaixotar” o jogador croata. Tudo que é necessário é não deixar Modric encontrar Perisic e Rebic. E assim deixar Mandzukic morrer de fome.

Claro, muito mais fácil eu escrever estas palavras do que isso acontecer de verdade. Mas a França teve similar sucesso cortando os espaços de Kevin De Bruyne nas semifinais. O jogador do Manchester City foi do céu – representando pelos feudos que encontrou contra o Brasil – para o inferno ao encarar os atléticos franceses.

estadio moscou
O belo estádio Luzhniki já está pronto para a final da Copa do Mundo

A França não pode cair nos mesmos erros

Quando falo em erros, não cito 2018 e sim 2016. A França entrou no gramado de Saint-Denis, na final da Eurocopa, como favoritaça para bater Portugal. Aos 25 minutos, Cristiano Ronaldo saiu do gramado lesionado. Ou seja, o cenário estava montado.

Só que o jogo se estendeu, se estendeu, foi para a prorrogação e Eder, com um chute seco no canto, fez um 1 a 0 no segundo tempo da prorrogação. Título para Portugal.

Paul Pogba admitiu nesta semana que a equipe teve soberba após ter batido a campeã mundial Alemanha nas semis. O meia do Manchester United é um dos seis titulares desta campanha que começaram o jogo contra Portugal. Os outros são Hugo Lloris, Samuel Umtiti, Blaise Matuidi, Antoine Griezmann e Olivier Giroud. Espera-se que a lição tenha sido aprendida.

Deschamps, conhecido por ser um treinador metódico, não lembrou de coisa melhor após a vitória contra a Bélgica que a batata engasgada na garganta por essa perda do título europeu. Dificilmente ele não vai bater na tecla do “não tem nada ganho” até a entrada no gramado no domingo.

O físico vai importar muito

Um elemento que considero bastante subestimado em copas é o físico. A Copa do Mundo acontece após o fim da temporada europeia, que por si só já acabam com o físico dos jogadores. Mais um mês de jogos e toda a pressão que vem junto só chegam para empilhar mais sofrimento.

Com a evolução da medicina esportiva, a preparação física e o condicionamento dos atletas, essa dor parece ser menos sentida. Só assim consigo explicar que nenhum jogador da Croácia tenha morrido de ataque cardíaco desde quarta. Mas é claro que a vantagem da França é enorme neste sentido.

Primeiro, eles são uns touros. Samuel Umtiti, Paul Pogba e Olivier Giroud poderiam jogar futebol americano (é uma boa brincadeira pensar em que posições). N’Golo Kanté faz a brincadeira do “parece que tem dois pulmões” – um jogador brasileiro disse que outro jogador tinha tanto fôlego que até parecia ter dois pulmões – ser proferida a cada vez que ele caça alguém em campo.

E segundo, eles estão muito mais descansados. Nenhuma prorrogação na conta, um jogo relativamente tranquilo contra o Uruguai e no final da partida contra a Bélgica o time chegou mais perto do segundo que os belgas de empatar.

A Croácia eu nem preciso dizer. Além de tudo, o time teve um dia a menos para se recuperar, já que jogou na quarta e os franceses na terça. A França nem treinou na quinta, preferindo recuperar seus jogadores. Eles vão estar muito mais próximos de 100% que os croatas.

Isso importa?

Já escrevi pelo menos dois textos destacando esse aspecto e a Croácia continua passando. A conta pode vir na final, mas talvez ela dê um tempo por 90 minutos. O time croata pode passar dois meses se recuperando de lesões musculares se eles tiverem uma Copa no currículo, pode ter certeza.

Um dado legal que os croatas podem usar. Em 1958 a Copa teve um campeão inédito, o Brasil. Em 1978 também, a Argentina. Em 1998 foi a vez da França ganhar pela 1ª vez. Em 2018…

Por fim, Griezmann e Mbappé

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É final de Copa do Mundo. E os dois craques do ataque francês vão precisar aparecer

Falamos de Modric, agora temos que falar dos craques franceses. Griezmann e Mbappé precisam assumir a responsabilidade como fizeram ao longo desta Copa, mas ainda em momentos diferentes.

Mbappé foi bem contra a Bélgica, colocando dois companheiros na cara do gol. Pavard parou em Courtois. Depois, com um passe mágico, Giroud não conseguiu fazer o gol, que seria seu primeiro na Copa. Griezmann foi mais tímido, mas quase deixou o dele no fim.

Contra a Croácia eles podem ter embates muito favoráveis. Lovren e Vida não são os zagueiros mais rápidos e a Croácia não tem dos sistemas defensivos mais intransponíveis já vistos: levou gol da Dinamarca, dois da Rússia e mais um da Inglaterra.

Não acredito que a Croácia se feche completamente e jogue com a bola, já que isso seria um contrassenso para uma equipe que tem Modric e Ivan Rakitic. Mas qualquer espaço entre meio e defesa pode ser explorado por esses dois jogadores de altíssima qualidade.