Unai Emery dá tiro no pé e assina carta de demissão

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Dead man walking. A expressão que os norte-americanos utilizam para qualificar os prisioneiros que recebem a pena capital como punição e estão aguardando a execução da punição pode ser aplicada para o técnico espanhol Unai Emery. Emergente graças à conquista de títulos da Liga Europa pelo Sevilha, foi contratado pelo Paris Saint-Germain para levar o time a um inédito título da Liga dos Campões. Para isso, os cartolas do clube parisiense demitiram Laurent Blanc, mesmo com o treinador tendo conquistado a tríplice coroa nacional (Campeonato Francês, Copa da França e Copa da Liga), um ano antes do fim de seu contrato.

Emery fracassou de forma retumbante na primeira tentativa. Depois de golear o Barcelona no jogo de ida do mata-mata das oitavas de final da temporada 2016/2018, levou um vexaminoso 6 a 1 na partida de volta. O pior momento da história do PSG. Mesmo assim, com contrato até o final da temporada 2017/2018, recebeu um voto de confiança dos cartolas. Não apenas foi mantido no cargo como ganhou os reforços milionários de Neymar e Mbappe, que consumiram mais de R$ 1 bilhão em investimentos.

Brasileiro deixa técnico com fama de banana

A chegada de Neymar mudou a forma como o treinador passou a ser visto pela torcida do clube e a imprensa francesa. Um novo rótulo foi colado em sua testa, além da pecha de incompetente que ganhara na temporada anterior. De ineficiente, Emery passou a ser considerado um banana.

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‘Dono’ do PSG, Neymar teve uma atuação apagada no mais importante jogo da temporada para o clube

Tudo isso pelos privilégios que concedeu ao ex-atacante do Barcelona dando folgas após suas incursões pela noite parisiense e permitindo que o titular da seleção brasileira se transformasse em uma espécie de dono do time, assumindo, inclusive, a função de cobrador de pênaltis por sua própria conta.

Confronto em Madrid marcou virada no comportamento

O treinador esperou pelo momento mais importante da temporada para tentar uma reviravolta na situação. No duelo contra o Real Madrid, na quarta-feira, 14 de fevereiro, tomou duas atitudes para mostrar que não apenas tinha pulso como conhecimento tático. Fracassou.

Autor do segundo gol do Real Madrid na partida, o lateral-esquerdo Marcelo mostrou a força da camisa do time 12 vezes vencedor da Liga dos Campeões

A oportunidade de demonstrar coragem foi com a exclusão de Thiago Silva do time. O zagueiro brasileiro não apenas é o campeão da equipe, mas amigo de Nasser Al-Khelaif. Uma atitude arriscada, ainda que correta. O defensor é um jogador superavaliado tanto por torcedores quanto pela mídia. Não apenas é tecnicamente inferior ao que se avalia, mas trata-se de um líder inoperante. Deu sinais disso na Copa do Mundo de 2014, quando arrumou um cartão amarelo totalmente desnecessário evitando que estivesse presente na histórica goleada para a Alemanha (7 a 1).

Na Liga dos Campeões anterior, estava convenientemente machucado no primeiro jogo contra o Barcelona. Com a imensa vantagem conquistada com a goleada de 4 a 0, ficou curado. Foi para o segundo confronto e ajudou a enterrar os sonhos do Paris Saint-Germain.

Campo fala, mas placar grita

Como diria o técnico da seleção brasileira, Tite, o campo até falou em favor de Emery. Ainda que tenha tomado a decisão com um ano de atraso, a dupla de zaga formada pelo também brasileiro Marquinho e por Kimpembe mostrou que Thiago Silva não faz qualquer falta. Porém, se o campo disse isso, o placar gritou o contrário.

Ao tomar uma atitude como essa Emery sabia que não tinha margem de erro. Mas falhou no momento crucial da partida, quando o marcador indicava o empate por 1 a 1. Tinha a chance de mostrar que o PSG estava ali para lutar para a vitória. Não o fez. Contando com o veloz atacante alemão Draxler no banco de reservas, e com o meia e atacante Di Maria, que havia feito excelentes partidas nas semanas anteriores, preferiu usar o lateral-direito Meunier para entrar na vaga do artilheiro Edinson Cavani.

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Ao trocar um atacante (Cavani) por um defensor (Melniuer), o PSG mostrou falta de ambição

A atitude mostrou claramente que tinha intenção de melhorar a marcação e segurar o resultado. O técnico Zinedine Zidane, do Real, que estava com seu cargo ameaçado, fez o contrário. Tornou o time mais ofensivo e foi recompensado por suas alterações.

Neymar, que tantas vezes contou com a complacência de Emery, não foi suficiente para ajudar o treinador. Cristiano Ronaldo, que havia sido ameaçado de perder o lugar no time na semana anterior por Zidane, mostrou serviço.

Assim, Emery voltou para Paris sabendo que se não conseguir uma histórica ‘remontada’ já pode começar a procurar outro emprego. Os currículos podem ser enviados para o departamento de futebol do Paris Saint-Germain.